sábado, 27 de fevereiro de 2010

Resignificação

“...esses meninos taciturnos e orgulhosos contêm as lágrimas muito tempo mas quando choram, por algum desgosto grande, as lágrimas não correm dos olhos deles – jorram como de uma fonte.”
Este é um trecho do livro Os Irmãos Karamázovi de Fiódor Dostoiévski. Durante muito tempo estas palavras tiveram muito significado para mim, era como uma epígrafe do que eu estava vivendo. Mas tudo na vida se transforma e ontem estas palavras se transformaram na minha frente numa bela poesia:
“...essas meninas sérias e nerds contêm os beijos muito tempo, mas quando beijam os beijos não apenas saem de suas bocas - escorrem como enxurrada infinda.”
Estas palavras foram me ditas e transformaram muita coisa naquele menino taciturno e as vezes orgulhoso. Quero que muitas poesias se transformem e sejam resignificadas para continuarem poesias e serem universais. Quero transformar jorros de lágrimas em enxurradas de beijos.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

A poesia

A poesia anda fugindo de mim. Ela desaparece e depois reaparece em momentos inesperados. Já vivi muito tempo em companhia dela, já pensamos em nos casar e ter filhos com nomes de escritores que amaram a poesia. Não deu muito certo. Poesia precisa de liberdade e eu a sufoquei um pouco, ela não aguentou e foi embora para respirar melhor. Acho que com medo de ser sufocada novamente ela não quer mais falar comigo. Hoje é dia dela e como ela me surpreende eu também a irei surpreender. Mas estou falando de uma poesia especifica e existem tantas e todas fogem de mim de alguma forma. Mesmo assim nos trombamos por acaso. Já a encontrei pendulando no meio fio de uma calçada no fim de uma madrugada enquanto ela reclamava da vida. Já fui cantado por ela enquanto ela me servia uma cerveja do outro lado do balcão. Já a levei para casa enquanto ela delirava e a fiz, com muito custo, se aclamar e dormir tanquila. Tantas vezes trocamos olhares fulgazes em ônibus lotados ou em vagões de trem deixando claro que não era a primeira vez que fletarvamos. Outro dia a surpreendi em uma mesa de bar na rua Augusta conversando com uma amiga. A chamei para conversar e trocamos contatos. Espero que esta poesia possa fazer várias outras e tornar-se uma epopéia, senão terei outro soneto na gaveta e mais uma infinitude de poesias a se irem pela janela pairando sobre essa grande metrópole.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

De Arlequin à Pierrot

Hoje é carnaval. É festa com riso, confete e serpentina desfilando pelas ruas. Mesmo assim sempre há um Arlequin solitário em meio a um salão esvaindo-se em lágrimas. Esse Arlequin é um ser em estado de metamorfose. Pouco a pouco toda a alegria e colorido da sua roupa de retalhos losangulares cedem lugar à sobriedade e tristeza das roupas brancas e largas de Pierrot. A máscara negra e viva dá lugar à um rosto constrangido e aclarado com pancake branco. Os olhos, antes, sempre atentos e voltados para fora, ficam distantes do mundo e voltados para os sentimentos profundos. Quando a transformação se completa não podemos mais reconhecer os traços do Arlequin que um dia existiu neste Pierrot. Agora um vulto segue sozinho em meio a multidão de foliões. É lógico que sempre em um Pierrot há um pouco de alegria latente, pronta a desabrochar e relembrar a imagem de um Arlequin saltitante que se foi. Mas agora não é a hora para rir e ele chora latejando para retornar a ser ridente.
Enquanto todos festejam o carnaval o Pierrot vive a ressaca da quarta-feira de cinzas. Mas por que? Simples. Pierrot sofre de um mal chamado lacuna. Há uma lacuna, um buraco, uma depressão, no coração de Pierrot. Pierrot sofre de lacuna no coração e nenhum cardiologista pode resolver este problema, portanto ele morrerá deste mal inevitavelmente. O vácuo foi causado pela partida de Colombina da sua vida. Todos dizem que ele poderia esquecê-la e viver em paz, mas como esquecer alguém que fez parte de sua vida? Como esquecer alguém que foi vida? Não é possível ficar parado ou andar em meio a esta multidão sem pensar na vida que há e na vida que falta.
Pierrot pensa se pode existir alguém que cubra esta lacuna, mas acredita que ninguém possa ser capaz de tal feito. O buraco deixado por Colombina é um buraco único, onde só ela cabe, quem vier ocupará outros espaços e se decidir-se ir embora deixará outro buraco no coração de Pierrot para fazer companhia ao de Colombina.
Pierrot é bobo. Pierrot não vai a luta, não gosta de se armar e batalhar pelo que ama, prefere aceitar sua condição, chorar, sentir saudade, ter sonhos intranquilos ou nem conseguir dormir, acordar desconfortável para vagar por ai carregando um coração esburacado de faltosas Colombinas. Ele não luta porque amor não se ganha na guerra, amor se ganha no tranquilo ato de viver poesias. Batalhas ele pode perder, agora uma rima, um verso bonito, nunca perderá.
Tem uma música do Los Hermanos que diz: “Todo carnaval tem seu fim”; não sei se esta música tem uma história particular, mas para mim esta é uma frase de Pierrot, uma frase daquele Arlequin que virou Pierrot quando viu sua Colombina ir-se pela porta com outro Arlequin. Nenhuma desilusão o deixará mais esperto diante da vida, Pierrot é alienado, é bobo, sofrerá tudo de novo, esburacando seu coração milhões de vezes, mil vezes sofrerá essa dolorosa metamorfose, pois continuará a acreditar nas pessoas e no amor que sente por elas e no que elas sentem por ele.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Legionário

Sou um legionário. Na minha adolescência participei da “religião urbana”, isso após a morte do "messias", Renato Russo. Para ser um fiel, depois deste golpe, temos que saber como foi a vida do cabeça da religião, voltar no tempo em que não vivemos. Em todo o tempo que eu vivi pesquisei muito sobre a vida dos outros que viveram em outro tempo. Ver a vida dos outros, sentir coisas que um dia, quem sabe, viverei. Pacientemente saber como foi ser adolescente, pai, amante e exemplo, sabendo que poderei ser tudo isso. Sabendo que a vida também me doerá. Solitariamente quero que meu filho tenha nome de santo, quero o nome mais bonito, a história mais bonita. Tantas coisas não vão acontecer. Quantas espero? É preciso muita tristeza para dizer coisas bonitas. Sim, sou um animal sentimental com recordações e saudades, com grandes amores e falsas verdades.Os Poetas Solitários, mesmo sendo Abortos Elétricos criam Legiões Urbanas. Acordar é saber que não temos mais o tempo que passou, é sermos Índios sem o que um dia demos a quem conseguiu nos convencer que era prova de amizade, é ser pássaro ferido longe do ninho. Dias e dias chorei no tapete da sala ouvindo Tempo Perdido e me perguntando se era tudo isso em vão? Se conseguiria vencer? Eu tinha todo o tempo do mundo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Cena paulistana

Sete da manhã. Dois amigos. Noite em claro tomando whisky. Olham a cidade pela janela do 15º andar.
- Nossa! Que dia lindo.
- Cara, nem consigo ver.
- É simples. O céu azul está acima da cortina de fumaça.