Hoje é carnaval. É festa com riso, confete e serpentina desfilando pelas ruas. Mesmo assim sempre há um Arlequin solitário em meio a um salão esvaindo-se em lágrimas. Esse Arlequin é um ser em estado de metamorfose. Pouco a pouco toda a alegria e colorido da sua roupa de retalhos losangulares cedem lugar à sobriedade e tristeza das roupas brancas e largas de Pierrot. A máscara negra e viva dá lugar à um rosto constrangido e aclarado com pancake branco. Os olhos, antes, sempre atentos e voltados para fora, ficam distantes do mundo e voltados para os sentimentos profundos. Quando a transformação se completa não podemos mais reconhecer os traços do Arlequin que um dia existiu neste Pierrot. Agora um vulto segue sozinho em meio a multidão de foliões. É lógico que sempre em um Pierrot há um pouco de alegria latente, pronta a desabrochar e relembrar a imagem de um Arlequin saltitante que se foi. Mas agora não é a hora para rir e ele chora latejando para retornar a ser ridente.
Enquanto todos festejam o carnaval o Pierrot vive a ressaca da quarta-feira de cinzas. Mas por que? Simples. Pierrot sofre de um mal chamado lacuna. Há uma lacuna, um buraco, uma depressão, no coração de Pierrot. Pierrot sofre de lacuna no coração e nenhum cardiologista pode resolver este problema, portanto ele morrerá deste mal inevitavelmente. O vácuo foi causado pela partida de Colombina da sua vida. Todos dizem que ele poderia esquecê-la e viver em paz, mas como esquecer alguém que fez parte de sua vida? Como esquecer alguém que foi vida? Não é possível ficar parado ou andar em meio a esta multidão sem pensar na vida que há e na vida que falta.
Pierrot pensa se pode existir alguém que cubra esta lacuna, mas acredita que ninguém possa ser capaz de tal feito. O buraco deixado por Colombina é um buraco único, onde só ela cabe, quem vier ocupará outros espaços e se decidir-se ir embora deixará outro buraco no coração de Pierrot para fazer companhia ao de Colombina.
Pierrot é bobo. Pierrot não vai a luta, não gosta de se armar e batalhar pelo que ama, prefere aceitar sua condição, chorar, sentir saudade, ter sonhos intranquilos ou nem conseguir dormir, acordar desconfortável para vagar por ai carregando um coração esburacado de faltosas Colombinas. Ele não luta porque amor não se ganha na guerra, amor se ganha no tranquilo ato de viver poesias. Batalhas ele pode perder, agora uma rima, um verso bonito, nunca perderá.
Tem uma música do Los Hermanos que diz: “Todo carnaval tem seu fim”; não sei se esta música tem uma história particular, mas para mim esta é uma frase de Pierrot, uma frase daquele Arlequin que virou Pierrot quando viu sua Colombina ir-se pela porta com outro Arlequin. Nenhuma desilusão o deixará mais esperto diante da vida, Pierrot é alienado, é bobo, sofrerá tudo de novo, esburacando seu coração milhões de vezes, mil vezes sofrerá essa dolorosa metamorfose, pois continuará a acreditar nas pessoas e no amor que sente por elas e no que elas sentem por ele.
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