E agora José?
A campanha acabou,
as câmeras apagaram,
o povo sumiu,
as coligações esfriaram.
E agora José?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que não fez versos,
que bombardeia protestos.
Você está sem discurso:
beber, seus cuidados com saúde não permitem;
fumar, sua lei não permite.
O riso não veio,
a Marina não veio,
a presidência não veio
e a privatização acabou
e a concessão cessou.
E agora José?
Sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora ?
Com a chave na mão quer abrir o Planalto,
não existe Planalto;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Aécio não apoia mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você a UNE novamente tentasse,
se você pro Chile voltasse,
se você cansasse,
se você desistisse…
Mas você não desiste,
você é cabeça dura, José !
Sozinho qual bicho tucano,
com teogonia contra o aborto,
sem cargo para se encostar,
sem cavalo preto que fuja a galope,
com bolinhas de papel atrás você marcha, José.
José, pra onde ?
domingo, 31 de outubro de 2010
sábado, 16 de outubro de 2010
Conversa de msn
Ele diz: Oi, menina! cê tá ai?
Ela diz: oi! qm és?
Ele diz: (adiciona uma foto)...com a foto melhora?
Ela diz: sim =)
Ele diz: tudo bem?... como vai nesse início de ano?
Ela diz: Nossa... mto curiosa mesmo pra saber qm és.
Ele diz: teatro!
Ela diz: aaaaaaaaaaaaaaaaaaahhnshuashuhsuhsaus! nossa... sério q vc me conhecia de lá?
Ele diz: aminésia?
Ele diz:não lembro de vc do teatro. Shashuashushushus!
Ele diz: tem certeza que não bateu a cabeça nesse inicio de ano ?
Ela diz: tenhoo! shuahushusa! foi vc qm caiu do telhado na escola?
Ele diz: Não! nunca subi no telhado de uma escola!
Ela diz: Nossa! aaaaaaaaaaaaaahi MERDA! lembrei de tii! “ q vergonha amigo!” Nossa! esqueça tudo q eu dissee. q bocó eu sou! pq vc num flou nada de Clarice Lispector, dae eu lembraria! shasuhsuahsa
Ele diz: hahhahahhahh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!que ótimo! que bom que é Clarice que ajuda a me lembrar.
Ela diz: siiim!
Ele diz: fiquei feliz! =)
Ela diz: imagina se eu não ia lembrar de nós bêbados, discutindo os livros dela? shauhsuhsu!
Ele diz:rsrsrsrsrrsrsr!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Estou lendo "A descoberta do mundo" agora.
Ela diz: hum...esse num li ainda!
Ele diz: é um livro de crônicas.
Ela diz: sim! eu ouvi falar
Ele diz: é tudo que ela escreveu para um jornal do rio
Ela diz: nhaaa! sim
Ele diz: estou adorando
Ela diz: q tem ela na capa? numa mesa, neh?
Ele diz: depende da edição.
Ela diz: ouvi falar bem desse. acho q vou comprá-lo
Ele diz: compre sim!
Ela diz: a edição de comemoração, se não me engano!
Ele diz: esta mesma
Ela diz: mas sou um ser pobre, sem grana, e desempregada, ex-estudante! shahsus
Ele diz: mas quais são seus planos nesta situação?
Ela diz: estou prestando um concurso público... se eu passar, trabalho por 2 anos
Ele diz: concurso público?
Ela diz: guardo o máximo de grana q puder. siiim... isso mesmo! Depois faço cursinho comunitário grátis e daqui dois anos, se num passar na facul, faço um cursinho decente . Com a grana q juntei passo em Curitiba e pra lá me vou tentar ser feliz em uma terra linda, e fria
Ela diz: minha amiga acabou de me dizer isso! q é engraçado ver os outros indo pra falar a verdade, odeio ver as costas dos outros indo embora... então, não sei se presto Direito, ou psicologia, mas sei que terei de trabalhar pra me sustentar, visto q o custo de vida lá é bem mais elevado q o daqui e arranjar um amor... nem que não seja eterno... preciso disso... infelizmente!
Ele diz: todos precisamos... algumas pessoas são felizes a dois, te entendo muito bem.
Ela diz: nossa... eu, infelizmente... preciso das pessoas ao meu lado, preciso q precisem de mim, preciso abraçar algm, e dizer q amo
Ele diz: que bom! poucas pessoas sabem a delicadeza de ter uma companhia
Ela diz: eu sempre precisei
Ele diz: poucos compreendem a solidão que cerca todos nos e tentam repará-la com uma companhia
Ela diz: desde mto nova percebo isso... mas nunca tive algo tão duradouro q me fisesse feliz
Ele diz: Eu tive mas passou... como diz o Fernando Pessoa: "pena as coisas serem só um bocado"
Ela diz: no meu caso... bocados bem pequenos...
Ele diz: a vida é surpreendente... a poesia chega em horas inesperadas... seus bocados chegarão e passarão e virão novos bocados... que pena que estamos km de distância, gostaria muito de sentar com vc e conversar sobre a vida.
Ela diz: ahhhh! eu adoooro falar sobre a vida... gosto dela... apesar dela me apunhalar às vezes...
Ele diz: a vida vive dando golpes baixos, ela é uma companheira traiçoeira... mas são estas, as que apunhalam, que nos deixam apaixonados
Ela diz: siiim... infelizmente... ou até felizmente... depende do ponto de vista... como dizem os fisicos... "depende do ponto referencial"
Ele diz: hahhahahhahah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ou o copo está meio cheio ou meio vazio, né?
Ela diz: siiiim...ai... esses fisicos me deixam louca demais!
Ele diz: hahhahah!!!!!!!!!!!não é atoa... Eles são loucos... vou pegar mais Whisky e volto em um instante.
Ela diz: aaaaaaaaah! tbm qrooo Wisky
Ele diz: voltei... é só aparecer aqui em Perdizes, na rua de sempre, no apartamento de sempre onde desde muitas Eras mora este seu amigo e terás whisky.
Ela diz: aaaaah, q vontadee! pq não vem pra cá nas férias?
Ele diz: acabei de voltar dai... passei Natal e Ano Novo... tinha que trabalhar e voltei se tivesse seu tel teria te ligado
Ela diz: olokooo! orkut não existe, neh?? a gente podia sair tomar um vinho
Ele diz: orkut existe, mas ai não tenho internet em casa e fica dificil se não tenho o tel das pessoas... muitos amigos me cobram para eu dar uma passada na casa deles quando eu volta... passo todos os dias pulando de um lugar para o outro e nem vejo todo mundo.
Ela diz: é isso é foda!... qd vier me liga: (passa o número do telefone)
Ele diz: tá anotado... quando voltar eu ligo
Ela diz: passa o teu?
Ele diz: (passa o número do telefone) quando aparecer liga.
Ela diz: ligo sim
Ele diz: adoro ler coisas em voz alta para pessoas especiais... agora deu vontade de ler um texto da Clarice para vc
Ela diz: aaaaah! Oloco! guarda pra próxima visita a SP q eu fizer.
Ele diz: está aqui, esperando vc... já sabe quando será?
Ela diz: não... neeem previsão..
Ele diz: mas o texto espera.
Ela diz: tá...
Ele diz: estou escrevendo um texto... do qual a Clarice foi grande inspiradora... eu queria escrever um romance... mas por enquanto tenho um conto... também posso ler em voz alta quando nos vermos?
Ela diz: hsahasuhsus! Pode, claro.
Ele diz: posso te fazer uma pergunta sobre as suas escolhas?
Ela diz: sim! claro! shashusah!
Ela diz: eu queria Curitiba... me apaixonei por ela...me apaixonei pela vida nela, mas se o destino quiser me mostrar outro lugar... aqui estou eu! só não pode ser mto calor... senão eu morro defumada! shahsuasha
Ele diz: hahahhahahhah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! =)
Ela diz: kkkkkkkk! pq tanto riso?
Ele diz: sei como é.
Ela diz: eh a vida... sou branquela demais!
Ele diz: entendido... sei também paixão como é... deixa a gente assim com rumo certo.
Ela diz: sim... e paixão dupla, então...humpf!
Ele diz: sei... daí é mais difícil ainda rumar para outras paragens.
Ela diz: sim... tento fugir... num dá...é horrivel...mas nunca se sabe o dia de amanhã
Ele diz: não é horrível, é belo... poucos sabem amar e dedicar tudo que podem ao que sentem... mas não espere nada em troca, assim é o amor.
Ela diz: eu dedico, demais...e nunca recebo nada... só o calor de um corpo ao lado a mim basta! shauhusahusa
Ele diz: pois como vc disse, não se sabe o dia de amanhã... a gente sente coisas, se dedica a elas, sem esperar nada e o quem vem é o que é para ser... a gente tenta manipular o destino, mas não devemos.... é ele quem nos manipula
Ela diz: agora eu to aprendendo q num adianta fazer isso!
Ele diz: (carinha sorrindo)
"atrasos do acaso
cuidados
que não quero mais.
o que era para vir
veio tarde
e essa tarde não sabe
do que o acaso é capaz"
Paulo Leminski ...acho que isso fala muito sobre a gente tentar manipular o destino
Ela diz: sim
Ele diz: eu tentei estar junto e estou sozinho
Ela diz: nossa...tb sou prova de q isso num dá certo...agora mesmo... tomo todo o cuidado, pra não esmagar meu destino, ele está em minhas mãos... nele tá minha possibilidade de felicidade em Curitiba nos próximos anos...
Ele diz: a felicidade está em como a gente encara as coisas... não nas coisa em si.
Ela diz: sim *-* eu tou procurando encarar cada dia com um objetivo e tentando ficar feliz em tudo...
Ele diz: a tristeza faz parte... depende de como a gente a vê, ela é boa ou ruim
Ela diz: pra mim ela é sempre avassaladora!
Ele diz: ela meche... mas só aprendemos quando somos mechidos...quando vivemos a crise, quando dói... aprendizado é isso... é dor... é incisão... é o orifício donde colocamos as coisas ruins para fora
Ela diz: mas qndo a gente se cura tbm... o alivio é recompensador!
Ele diz: sim... é possibilidade de saber que a dor não foi em vão... é a mesma coisa que quando uma mãe vê o filho recém-nascido... doeu, mas trouxe coisas belas
Ela diz: nossa, q profundo! shashusahas
Ele diz: eu sou assim.
Ela diz: shaushus! preciso ter um filho pra saber disso!
Ele diz: eu não tenho... mas entendo a dor feminina... entendo a dor humana... a dor de todos os dias... que é a mesma dor de nascer e de dar a luz... a dor é humana.
Ela diz: sim
Ele diz: a dor me dói
Ela diz: a dor q mata dentro... e não fora!
Ele diz: esta mesma... está doendo, e está me matando... mas o que é a vida senão se matar um pouco por dia?
Ela diz: essa dor q todo mundo carrega desde sempre
Ele diz: desde o nascimento
Ela diz: q carregamos no sangue... a dor herdada das outras gerações...
Ela diz: sim... essa!
Ele diz: é dor somente
Ela diz: sim! Essa... vc tá entendendo... essa q vem com nossos sobrenomes, gravadas em nossas certidõs de nascimento!
Ele diz: sei muito bem... essa dor pode ser reconfortada... mas sempre doerá... ela é maior do que nós e passará para os nossos filhos.
Ela diz: sim.
Ele diz: e talvez doa em nosso filhos tanto quanto dói na gente
Ela diz: ou mais... e essa nossa dor de ver a dor e não poder sarar a dor?... a dor até de naum sentir dor!
Ele diz: a dor de ver a dor e o humano e saber que doerá mais... a dor de pedir socorro porque não sente a dor... a dor... o primitivo... o que vem desde as nossas origens... isso realmente me dói... e não tem um paliativo... me dói mais que a dor em si...
Ela diz: ...sim... a dor do egoísmo me dói tbm
Ele diz: ...muito mais que a solidão, muito mais que o vazio, muito mais que a falta, que o machucado... dói o não-cuidado com o outro dói
Ela diz: nossa! acho q tou filosofanto tanto hj!mta tequila!rssssssssssss... a dor... dor fisica, enfim, é a menos dolorida!
Ele diz: não é tequila que faz filosofar, é a vida que faz, que faz pensar.
Ela diz: rssssss
Ele diz: o que marca é a dor que não é física... a dor psicologica não passa, não tem analgésico... a física sim
Ela diz: eu gostaria de entender a psicologia
Ele diz: como nos diz Clarice sempre se lembre: "Não procure entender, viver ultrapassa qualquer entendimento"
Ela diz: sim, mas a minha necessidade é maior... é como sede!
Ele diz: algumas sedes são remediadas, nunca saciadas, está é uma delas, a sede do entendimento. vc pode diminuí-la, nunca saciá-la... por isso tente entender... é necessário
Ela diz: rssssssssssssssss
Ele diz: rsrsrrsrsrsrsrsr
Ela diz: na verdade... naum sei qual a verdade! ...é meio perdido, tosquinho...mas meu coração sente isso agora!
Ele diz: siga seu coração... não há verdade maior do que a que nosso coração nos diz.
Ela diz: temo q a verdade dos homens não seja mais a verdadeira, mas a que mais convém!
Ele diz: Há muita verdade nas inverdades.
Ela diz: ai... tá vendo?... complicou de novoo!...shahss
Ele diz: rsrsrrsrsrsrsrrs...pois é a vida... é assim complicada...sem verdades definitivas... cada momento uma verdade... cada situação uma verdade impalpável... mas tão verdadeira quanto qualquer verdade objetiva.
Ela diz: DEUS!!! AJUDAA! QUAL A VERDADE QUE DEVO SEGUIR?
Ele diz: Não sou Deus, mas se ele te falasse diria a mesma coisa como disse tantas vezes na Bíblia: “a que manda seu coração”... é seu coração perante o mundo constroi as verdades...os momentos junto com o coração constroem a verdade... hoje é assim... amanhã... ?...será amanhã...
Ela diz: nossa...isso me cansa a beleza... shuashuahsushushushusa!
Ele diz: rsrsrsrrs
Ela diz: brincadeira! Não há beleza
Ele diz: como não?????????.... se tens dúvida eu digo: “TU ÉS BELA!”, e tenho dito
Ela diz: hsuahuhsa.... obrigada...shuashsuahas
Ele diz:rsrrsrrsrsrrsr!Ela diz: (carinha vermelha)
Ele diz: (carinha vermelha)... ficamos os dois vermelhos!... rsrsrrsrsr
Ela diz: kkkkkkkkkkkkkkkkk
Ele diz: ...mas não canse tua beleza com estes problemas... viva e curta a sua beleza
Ela diz: eu tento...
Ele diz: continue tentando... A VIDA É TENTATIVA E ERRO!
Ela diz: ADORO!
Ele diz: ...pois tente e erre!
Ela diz: (carinha piscando)
Ele diz: (carinha piscando) VIVA!
Ela diz: “VIVA LAS VEGAS!”... shahsuashuhssuhsa
Ele diz: KKKKKKKKK!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! boa!
Ela diz: Viva las tequilas!
Ele diz: e los whiskys, e las batidas,e la ceveza.... gracias a la vida!!!! VOU GUARDAR ESTA CONVERSA
Ela diz: pq?
Ele diz: é difícil viver coisas tão profundas e bonitas como estes momentos que tivemos... essas coisa belas devem ficar eternizadas... mesmo que pouco tempo na minha memória humana...
Ela diz: hasuhauhsuhsuhsuhsa! Ok...foi até engraçada, além de profunda
Ele diz: a vida é assim: profunda e séria, triste e engraçada. feita de opostos: homem e mulher, adulto e criança, vida e morte.
Ela diz: sobriedade, embriaguez... embriaguez* (!) shaushuashusahs
Ele diz: muita embriaguez para aguentar a bronca... hhahahahaha!!!!!!!!!!!!!!!
Ela diz: kkkkkkkkkk... sabe? eu gosto de estar bebada.
Ele diz: eu também
Ela diz: apesar da dor de cabeça no dia seguinte
Ele diz: "hoje sai para tomar um porre. Um porre para esquecer. o problema é que depois da dor de cabeça a gente lembra."
Ela diz: hsuhsuahsuhsu!
Ele diz: Linda, estou indo nessa... vou assistir um filme... outro dia conversamos mais
Ela diz: Okay... vai nessa... um beijo... até logo...
Ele diz: grandes beijos
Ela diz: foi mto bom ter teclado contigo! Bjooos!
Ele diz: Igualmente... até mais... beijos...
(Ele acaba de ficar off line e pode não responder)
sábado, 12 de junho de 2010
...ser bom...
...fiz uma promessa que não posso cumprir... prometi ser bom... ser bom é difícil... ser bom seria possível?... acho que todo o mito que construimos acerca da idéia de um ser bom, mito de ser uma pessoa de bom caráter, é uma idéia falha perante a sociedade em que vivemos... mas o que é ter bom caráter?...o que é caráter?... o é bom?... o que é ser?... mesmo com todas estas dúvidas existe algo dentro de mim que impede de eu não gostar da idéia de ser uma pessoa de bom caráter... quero ser bom... talvez esta afirmação na verdade seja uma prece, uma reza para que algum deus (se existir alguma divindade) me faça um ser bom... hoje tentei ser bom - não sei se fui... fiz o que meu coração, (...) meu caráter(? ...), mandava para que eu fosse uma pessoa boa... será que foi o suficiente para já ser bom?... Nelton já disse: "toda ação corresponde a uma reação igual e contrária"... outros dizem que: "temos que estar dispostos a pagar o preço"... mas até quando?... os juros andam altos e quem sabem eu não possa reembolsá-los... quem sabe eu não possa pagar para ser bom...
domingo, 6 de junho de 2010
Culpa insone
Escrever para passar impune pelas noite de insônia. Estou insone agora e escrevendo. Há alguns anos atrás eu caminhava pela cidade durante as madrugadas em que não conseguia dormir. Tenho que admitir que existe uma certa culpa em não dormir. Você se sente marginal, parece que enquanto a cidade participa da assembléia do sono você nega todos os princípios e acordado vê o que ninguém vê, come, bebe, vive.
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Homem espelhado
"Partiu-se o espelho mágico em que me revia identico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim! ... "
Fernando Pessoa
Certa manhã Gregório acordou de pesadelos e teve medo de se olhar no espelho. Tinha medo de que houvesse se metamorfoseado em um monstro mítico durante o sono e que, a partir de então, seus olhos tinham o poder de petrificá-lo se, através do reflexo, os olhasse bem no fundo. Ele não estava pronto para uma petrificação e resolveu que naquele dia não se olharia no espelho. Evitaria o seu reflexo custasse o que custasse. Faria isso só por garantia daquela estranha sensação ser verdadeira.
Entrou no banheiro desviando o rosto do aparelho de reflexão encontrado na parede. Com os olhos bem apertados, quase esmagados para garantir que não se abririam, abriu o armário do espelho e deixou-o aberto enquanto escovava os dentes. Naquela manhã não certificou se a gravata estava bem colocada, afastou-se bem da porta do microondas, tomou o café como os olhos parados num ponto na parede, tudo isso para não surpreender-se olhando no pires ou no açucareiro sua imagem refletida. Enquanto estava em casa evitou tudo que pudesse trazer a consciência da sua imagem.
O grande problema veio no caminho para o trabalho. Era difícil desviar das janelas e portas de vidros que refletiam, mesmo que refletissem difusamente era sua imagem de alguma forma. Também haviam carros bem encerados e com vidros escuros que serviam como espelhos em movimento. Qual seria a tática para fugir de seu reflexo? Na primeira tentativa de desvio da visão que Gregório fez, focando o chão, trombou no primeiro passante que vinham em sua direção, o qual, totalmento "solidarizado" e "consciente" dos problemas de ordem subjetiva do nosso personagem falou: “Olha por onde anda, mané! Perdeu dinheiro, foi?” ... Não, Gregório não havia perdido dinheiro. Não havia perdido nada. Ele só não queria virar pedra e perder uma certa liberdade de movimentos que tinha. As pessoas não aceitariam que ele andasse do jeito que havia andado até aquele momento. O que fazer? Como chegar ao trabalho sem se ver espelhado em algum lugar? Ficou parado ao lado de um poste olhando para o chão enquanto pensava em uma alternativa. Mas quanto mais pensava, mais o problema aumentava: não podia olhar nem para o chão, nem para o céu, muito menos andar de olhos fechados, pois trobaria nas pessoas. Talvez pegar um táxi. Seria mais fácil desviar do reflexo de um automóvel só. Com alguém guiando, usando os olhos por ele, não precisaria fazer muita força para desviar da sua imagem. Bastava entrar, fechar os olhos e falar para onde deveria ir.
Desfocou o olhar para evitar a nitidez que poderia vir de uma surperfície reflexiva e acenou para o primeiro carro branco com um letreiro em cima que viu. Olhou para baixo e esperou as rodas aparecerem ao lado da guia, tateou a porta até encontrar a maçaneta, entrou e falou o endereço para o taxista. Olhava para o carpete do carro para não deparar-se com espelho retrovisor. Logo depois que o motorista deu a partida ele reclinou a cabeça para trás mantendo os olhos fechados e suspirou aliviado. Tinha resolvido parte do seu problema.
Ao descer do táxi, na porta do trabalho, parou o olhar no chão para evitar os vidros espelhados do prédio comercial. Dentro da sua sala evitou tomar café em razão da bandeja de inox e do metal bem lustrado da cafeteira. Por volta do meio do dia o cansaço, causado pelos cuidados com os espelho, escureceu sua vista e dentre a escuridão surgiram imagens. Primeiro apareceu a imagem de seu pai apontado-lhe o dedo na cara e dizendo: "você nunca vai ser ninguém na vida, moleque"; logo atrás veio sua mãe que vertendo rios de lágrimas lamentava: "por que Maria foi embora? ela era uma moça tão alegre, eu sei que foi ela que um dia falou que estava indo embora e foi sem dar explicação, mas só pode ter sido culpa sua, você sempre fez as coisa erradas, eu, como boa mãe, tentei te dar uma boa educação, mas você sempre foi revoltado, meu filho!". As duas figuras crescerem a sua frente, a neblina dispersou num repente e ele acordou em sua mesa do escritório com a gravata frouxa, a cara amassada na mesa e os cabelos molhados de suor. Gregório queria lavar o rosto, mas no banheiro da empresa havia um grande espelho que refletia em uma escala insurportável de um por um. Seria insuportável tal visão. Lembrou que na gaveta de sua mesa havia uma velha toalha de rosto, cuidado de sua ex-mulher, cuidado bem vindo neste momento. Pegou a toalha, secou o rosto nela e recordou da passagem da via sacra em que o rosto de Jesus ficava impresso em um pano que havia sido usado para secar o seu rosto. Desesperado, providenciou para que a toalha marcada pelo seu suor fosse logo para a gaveta, longe de seus olhos.
O dia passou rapidamente e o desespero da visão de seu próprio rosto diminuiu um pouco, o suficiente para ele caminhar até o metrô, mas não em quantidade suficiente que fizesse com que ele desgrudasse os olhos do chão. Entrou na estação o mais rápido possível. Este era o momento mais odiado do dia, centenas de pessoas se espremiam na plataforma e dentro dos trens para conseguir voltar para casa. Ele não gostava de ser empurrado e muito menos de empurrar pessoas; mas, sem que isso o incomodasse muito, deixou-se ser empurrado para dentro do vagão. Estava agora sustentado entre pessoas desconhecidas, era estranho, como pessoas que nunca ele havia visto na vida, salvo duas ou três que pegavam o metrô no mesmo horário que ele, podiam ampará-lo neste momento de total entrega ao levar das coisas. Passou a primeira estação e nada mudou, passou a segunda e ainda estavam uns apertado nos outros, mas quando chegou na quarta muitas pessoas desceram. Gregório pode ajeitar-se melhor no vagão segurando um dos apoios de metal e de frente para a janela do vagão teve uma dessagradável surpresa. Quando o vagão entrou no túnel, o vidro, que até aquele momento mostrava a plataforma lá fora, passou a mostrar o seu reflexo. Pela primeira vez naquele dia foi inevitável olhar para o fundo dos seus próprios olhos. Sua imagem parecia desconfiar que não estavam, a imagem e ele, seguindo o reflexo certo. Ele havia escolhido em outro tempo o mais frágil de todos os reflexos e, claro, os espelhos que primeiro deram a sensação de unidade eram de material fraco e foram quebrados, largando pelo chão minúsculos fragmentos de si mesmo. E assim, rituais alegres de chuva feitos em outros tempos revelaram-se hoje em tempestades que ele não sabia controlar.
Neste instante de desespero em que encontrava-se olhando para si mesmo percebeu que os espelhos mostram as verdades que se encontram nos fundos dos olhos e isso causa petrificação de espantamento instantâneo. Ele não queria viver essa sensação naquele momento, tinha medo da verdade, do conteúdo do seu coração, da sua mais verdadeira consciência que o petrificaria, revelação profunda que não poderia ser revelada assim, como estava sendo revelada.
Percebeu neste momento que estava perdendo os cabelos, que a vida que havia escolhido tinha criado em volta de seus olhos rugas e olheiras. Como isso doia. Era o homem, ele mesmo, em confronto com o homem, ainda mais ele. Dentro de seus olhos poderiam ser lidas várias coisas. Seus olhos tinham medo da solidão, do descaso, do abandono e da morte das pessoas queridas. Desta forma precebeu que tinha medo de si mesmo e que quem havia causado todas as perdas e decepções dos últimos tempos, não haviam sido outros e sim ele mesmo. Cada coisa que passava pela sua cabeça doia mais, cada vez que percebia que era seu próprio algoz era como se descesse mais a guilhotina que havia preparado para si mesmo. Porra! Não podia colocar a culpa em ninguém ele havia escolhido a sua forma de colocar-se no mundo. Por mais que o mundo não fosse da forma ideal que ele imaginava, a culpa não era de terceiros e sim dele mesmo, em primeirissima pessoa.
Gregório queria saltar daquele metrô, na verdade, queria saltar no vão do metrô. Olhou para o chão, respirou fundo e pensou: "se a culpa era todas daqueles olhos acusadores que pertenciam a ele mesmo, porque sofria tanto? era só resolver o problema com ele mesmo". E ai estava o grande problema: havia tentado o dia inteiro fugir de si mesmo e não conseguira.
domingo, 11 de abril de 2010
Em tempos de pós
Depois que invetaram a pós-modernidade as pessoas passaram a ser pós alguma coisa, mas deixaram de ser alguma coisa. Hoje todos são pós, a negação, o passo seguinte de alguma coisa, mas ninguém se define como alguma coisa, ninguém é nada. Ando encontrando até pessoas ditas ‘pós-contemporaneas’, (Agora, achar um contemporâneo está difícil!).
“É tempo de pós-amor”. Essas palavras de Marina Colasanti andaram martelando na minha cabeça. Como amar nesse tempo de pós-tudo, nestes tempos de pós-amor?
Assisto filmes de amor, ouço músicas de amor, leio romances de amor, participo de conversas de bar sobre o amor, procuro encontrar o amor por ai dando bola para mim e até escuto as pessoas reclamarem de não terem amor como se o amor fosse uma posse.
Mas todas as pessoas que procuram o amor ou que querem tê-lo dizem que ele está ultrapassado, que investir num flert de uma noite é besteira, que mandar flores é coisa do século retrazado - quiça , com sorte, do início do passado-, que convidar para ir ao cinema ou teatro é coisa de nerd loser (perdão, devo dizer geek, como dizem agora - ou até o último segundo), que esperar ansiosamente a campanhia ou o telefone tocar é besteira, que falar eu te amo é exageiro. Ando pensando que não sei se é o amor está ultrapassado ou se são as pessoas que passaram do amor e nem o notaram nesses tempos de pós-tudo.
Não gosto de ser pós- moderno, sou moderno; não gosto de ser pós-contemporâneo, sou comtemporâneo; não sou do pós- amor, sou do amor mesmo.
domingo, 21 de março de 2010
Re Sente
Perguntei:
"Porque acabava antes de começar?"
Ela respondeu:
"É que forte, não bateu. "
...
(Essa doeu!)
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